Entrevista na GloboNews

Guerras também destroem a natureza e quase ninguém está olhando para isso
Fui convidada pelo jornalista André Triguedo para falar sobre o assunto no programa Cidades e Soluções ao lado do presidente da COP30, André Corrêa do Lago, e de Caetano Scaravino para discutir um tema que ainda permanece invisível no debate global: os impactos das guerras sobre a biodiversidade e o clima.

E os dados são alarmantes.

Os conflitos armados dobraram nas últimas décadas e hoje:

  • atingem 70% das áreas protegidas do planeta

  • afetam mais de 80% das regiões prioritárias para biodiversidade

  • impactam 85% das espécies de aves

Mas o mais preocupante é que esses impactos vão muito além das explosões.

Guerras silenciosamente contaminam o ar, a água e o solo. No Mar Negro, por exemplo, o uso de sonar e explosões submarinas levou à morte de cerca de 48 mil golfinhos. Na África, conflitos reduziram populações de grandes mamíferos pela metade. No Vietnã, os efeitos do agente laranja persistem décadas depois sobre os insetos.

E há um ponto crítico que raramente entra na conta climática:
As guerras são grandes emissoras de gases de efeito estufa — mas essas emissões não são reportadas.

Se fossem um país, as emissões militares estariam entre os países mais emissores do mundo.

Ao mesmo tempo, os impactos mais profundos não são diretos — são institucionais. Quando governos colapsam:
  • armas se tornam acessíveis

  • a caça ilegal dispara

  • áreas protegidas deixam de existir na prática

Em Angola, por exemplo, encontrei paisagens onde grandes mamíferos foram quase eliminados pela guerra — e hoje, mesmo com a paz, esses animais enfrentam uma nova ameaça: campos minados.

Ou seja, a guerra não termina quando o conflito acaba.

Na entrevista, discutimos como as guerras impactam diretamente a transição energética — o processo de reduzir o uso de combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás) e substituí-los por fontes renováveis.

A guerra atua em duas direções opostas.

Guerras e transição energética

Vivemos um momento em que:

  • a crise climática se agrava

  • mas os investimentos globais em armamentos aumentam

Sabemos o que funciona:
    ✔ prevenção
    ✔ restauração ambiental
   ✔ fortalecimento de sistemas de saúde
    ✔ apoio a comunidades locais

Sabemos também que há dinheiro para isso.

O que falta não é solução — é prioridade.

Por um lado, pode acelerar a transição. Conflitos expõem a fragilidade da dependência energética global. Cerca de 20% do petróleo mundial passa pelo Estreito de Ormuz, e crises elevam preços e pressionam países a investir em energias renováveis e diversificação.

Por outro lado — e de forma dominante — a guerra atrasa essa agenda.

Primeiro, porque aumenta diretamente as emissões: as atividades militares respondem por cerca de 5,5% das emissões globais, muitas vezes nem reportadas.

Segundo, porque desvia recursos. O mundo gasta cerca de US$ 2,7 trilhões por ano em atividades militares — mais de US$ 1 trilhão acima do investimento climático. Apenas uma fração disso já financiaria a adaptação nos países mais vulneráveis.

O paradoxo é claro: a guerra expõe a necessidade da transição energética, mas ao mesmo tempo cria as condições que a atrasam.

Terceiro, porque as crises levam países a priorizar segurança energética imediata. Isso frequentemente significa voltar ao carvão, petróleo e gás, como ocorreu na Europa após a guerra na Ucrânia